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quarta-feira, 25 de março de 2015

HELBERTO HELDER... IN MEMORIAM



Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA

 "Quando eu morrer voltarei para buscar
 os instantes que não vivi junto do mar."

Hoje é trasladado o corpo de Sophia de Mello Breyner Andresen do cemitério de Carnide para o Panteão Nacional, dez anos depois do seu falecimento, acontecido a 2 de julho de 2004.
Nascida em 1919, foi criada numa família aristocrática portuguesa e educada na moral cristã, valores que são reflexos na sua obra. 
Mãe de cinco filhos, um dos quais é o escritor Miguel Sousa Tavares, em 1975 foi eleita para a Assembleia Constituinte.
Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesía pela Sociedade Portuguesa de Escritores e o Prémio Rainha Sofia em 2003. Atingiu o Prémio Camões em 1999, sendo a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão da língua lusa.
A autora de "A menina do Mar", dos "Contos Exemplares" e um sem-fim de poemas, contos infantis, peças de teatro, ensaios e traduções, a namorada do mar partilha desde hoje o seu descanso com a fadista Amália Rodrigues e os escritores Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, João de Deus, e Guerra Junqueiro, juntamente com outros ilustres portugueses.
Vale a pena ler...

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"camoes", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/camoes [consultado em 02-07-2014].
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"camoes", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/camoes [consultado em 02-07-2014].


sexta-feira, 27 de junho de 2014

OITOCENTOS ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA




linha 1
En'o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temëte o dia de mia morte, a saude de mia alma e a proe de mia molier raina dona Orraca e de me(us) filios e de me(us) uassalos e de todo meu reino fiz mia mãda p(er) q(ue) de

linha 2
pos mia morte mia molier e me(us) filios e meu reino e me(us) uassalos e todas aq(ue)las cousas q(ue) De(us) mi deu en poder sten en paz e en folgãcia. P(ri)meiram(en)te mãdo q(ue) meu filio infante don Sancho q(ue) ei da raina dona Orraca agia meu reino enteg(ra)m(en)te e en paz.
E ssi este for

linha 3
morto sen semmel, o maior filio q(ue) ouuer da raina dona Orraca agia o reino entegram(en)te e en paz. E ssi filio barõ nõ ouuermos, a maior filia q(ue) ouuuermos agia'o ...



Eis as primeiras palavras escritas numa língua que se tem espalhado pelo mundo e que, como diz o Manifesto 2014 inserto no jornal Público, "É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino".

Hoje são comemorados oitocentos anos do mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, o Testamento de Dom Afonso II, terceiro rei de Portugal, datado de 27 de junho de 1214, descoberto em 1973 e publicado pela primerira vez em 1979 pelo Padre Avelino Jesus da Costa. Deste texto existem dois exemplares, enviados ao arcebispo de Braga e ao arcebispo de Santiago.

Afonso II de Portugal, "o Gordo", filho de D. Sancho I de Portugal e de D. Dulce de Aragão, nasceu em Coimbra a 23 de abril de 1185 e faleceu em Santarém a 25 de março de 1223, tendo sido sepultado no Mosteiro de Alcobaça. 

O Testamento de 1214 juntamente com a Notícia de Torto (datada entre 1211 e 1216, na qual são referidas "as malfeitorias de que foi injustamente vítima Lourenço Fernandes da Cunha") e com a Notícia de Fiadores de 1175 recentemente descoberta, aparecem como os documentos originais mais antigos escritos em português.



quarta-feira, 23 de abril de 2014

ADIVINHANÇA

Descubra o conto de Mia Couto de que estamos a falar...

Este conto não segue as leis da lógica. A subversão, aqui proposta, exige muita atenção por parte do leitor. A sua extensão não é muita mas cada palavra é um símbolo da luta pela liberdade do protagonista apesar dos acasos da sua vida. Os mesmos acasos que fazem parte da história do seu país. Se a liberdade está no homem  e o homem acaba com a vida, a vida ainda existe, está ali, sai de um lugar e volta para o mesmo lugar por razões que ele próprio não percebe, não sabe quem é o seu amigo, e isso devasta, e revolta, onde está essa liberdade do homem no mundo? A história de vida de um homem que para perante os acontecimentos. A crítica coutiana fala das conversas com os mortos na escrita do nosso autor: qual homem mais morto do que aquel que não pode dispor da sua própria liberdade? Mas, como atingir uma liberdade que não se conhece? Se formos livres através do engano, do acaso, da mudança do tempo, qual é a perspetiva certa? Quem se balanceia: o homem, a cadeira ou o mundo?

segunda-feira, 24 de março de 2014

DIA MUNDIAL DA POESIA (II)

Ainda mais para comemorar o dia mundial da poesia. Desta vez um audio com cinco poetas portugueses, um excelente trabalho do David Ferreira para o "Programa da Manhã " na Antena 1 Rádio. Vale a pena ouvir...

http://www.rtp.pt/play/p955/e147956/david-ferreira-a-contar

sexta-feira, 21 de março de 2014

DIA MUNDIAL DA POESIA



 Dança do deus Apolo com as Musas (Giulio Romano)


No dia mundial da poesia, com a primavera recém-nascida... 


Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei. 




Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Grimórios

Lá vão três divertidas histórias dos colegas de Avançado 2 da E.O.I. de Zafra: do Manuel ("A caça do bambozino", da Carmen ("Livro das Cornucópias) e do José Antonio ("Livro da Bruxa Loira"), inspiradas no Grimório de São Cipriano. Esperamos que gostem delas. Se calhar podem pôr em prática...


LIVRO DE MANUEL O BRUXO
                                                         Folha 666


A CAÇA DO GAMBOZINO
Há nesta nossa terra estremenha uma antiga lenda que fala da existência dum animal noturno que é muito difícil de caçar: é o chamado “gambozino”.
Muitos dizem que na realidade não existe, mas o sábio e velho Bruxo Manuel pode afirmar que os gambozinos realmente existem, e que o sortudo que o consiga capturar terá muito proveito.
A primeira recomendação é clara: acreditar na existência deles. Depois a caça começa: espera que chegue uma noite sem lua, sem vento e sem nuvens, porque os gambozinos apenas gostam da luz das estrelas. Leva contigo um saco grande e uma corda para evitares que os gambozinos fujam do saco. Não leves lanterna nem luz nenhuma; os gambozinos fugiriam no mesmo instante. Olha para para às árvores e atrás das rochas, e quando se mostrarem, canta bem alto:
       “Um, dois, três, quatro… gambozino para o saco”
Se tiveres a sorte de apanhar um gambozino a tua vida mudará para melhor, desde que não abras o saco para olhares no interior e conheceres o segredo dos gambuzinos.
                                  O Bruxo Manuel
                            (Zafra, 22 novembro 1666)


LIVRO DAS CORNUCÓPIAS

Extractos do Livro das Cornucópias, escrito no século XIV na Estremadura pela venerável e celebrizada Candela “A Feiticeira”.

“A magia é uma ciência sublime que ultrapassa o terrenal e que nos aproxima do Ser espiritual pelo qual foi criada a Mãe Natureza nascida do encontro entre a Luz e a Escuridão. Só as almas puras e inteligentes podem atingir os secretos conhecimentos que se têm constituído em tradição oral desde os nossos antepasados e que eu, humilde servente do Logos, tentarei escrever para que vivam por sempre.”

“Precisa-se de um trem composto por talheres de madeira de carvalho, um bom almofariz de xisto verde, várias panelas de barro e um caldeirão de cobre. O traje também é importante: túnica vermelha para as mulheres e azul para os homens; capa preta e chapéu pontiagudo em feltro preto con abas. Mas o mais necessário é a aptidão: é preciso ter a graça da discrição e da magnanimidade para o aprendiz poder tornar-se em experto e assim ser útil a todo aquele que necessite da sua ajuda.”

“Para apanhar azeitonas. Após ter engolido a poção de inverno em frente da árvore, um café com cheirinho fervido numa panela por dois minutos e meio, dar cinco voltas à oliveira enquanto se repete a fórmula a seguir: Ó espíritos dos óleos, venham na nossa ajuda, afastem o frio e a chuva, e aqueçam os nossos corpos!”

“Para se obter o melhor gaspacho. Misturar no almofariz o pão, o azeite, o vinagre, o alho, o tomate e o sal. Triturar com o pilão devagarinho por noventa minutos. A cada cinco minutos beber um copo com sumo de uvas fermentadas e dizer a cada gole: Pilão amigo do vinho do Baco, não sejas impaciente e eu dar-te-ei o teu trago, ao passo que juntos fazemos o gaspacho.”

“Para se ter um bom dia. Antes da saída do sol, pôr no caldeirão porções variáveis, tendo em conta a altura e o peso da pessoa, de bolotas, miolo de pão com chouriço, vinho tinto, vinho branco e aguardente. Remover com ternura por volta de duas horas, invocando aos druidas Epicuro e Panorámix. No momento do pequenho almoço pedir para alguém que experimente a beberagem. O mais provável é que nesse instante fique doente a vítima. Com certeza que o resto vai passar um dia feliz por não ter adoecido.”

“Para uma boa sesta. Os melhores resultados serão obtidos no caso de ter feito e consumido o gaspacho à maneira explicada anteriormente neste mesmo grimório. Só basta pegar uma panela cheia de grão-de-bico e contá-los. A magia fará o resto.”



LIVRO DA BRUXA LOIRA.

Feitiço para namorar a mulher dos teus sonhos.


Ao cair a noite de um gélido dia de inverno, vá às montanhas que fiquem mais perto da sua morada e no luar procure a penha mais alta para se sentar encima dela a meio da escuridão. Se por acaso estiver nevoeiro, pode-se ajudar da fraca luz de um candeeiro na procura da rocha desejada. Aguarde sentado lá até à meia-noite e não deixe o lugar mesmo que sinta a chamada da natureza por causa de ter comido ou bebido em excesso para combater as baixas temperaturas e a chatice da solidão noturna.

Após a meia-noite, espere até passar um lobo que tenha apenas uma pata preta e não só tente caçá-lo com uma atiradeira; além de o tentar, consiga-o. É muito importante que o animal seja um lobo com uma pata preta, não um simples cão selvagem. Isto é inegociável!

Quando finalmente você tiver conseguido o seu alvo com sucesso – às vezes podem transcorrer inúmeras horas, noites intermináveis ou ainda semanas inteiras -, vá imediatamente para casa da sua futura namorada e, se for possível, chegue lá por volta das quatro ou cinco horas da manhã. Comece a cantar uma estudantina dedicada para ela, bata à porta mesmo com todas as forças que conserve e mantenha-se à espera da aparição da imagem sensual da sua namorada a vestir um velho pijama às riscas coberto por um roupão aos quadrados castanhos e roxos enquanto exibe os rolos na cabeça e o seu comprido cabelo embrulhado numa rede.
   
Com certeza, a mulher dos seus sonhos ficará apaixonada por você, por esse olhar fixo e húmido, esse sorriso inalterável afixado no seu gelado rosto, essa tez fresca e tersa sem ruga nenhuma, esse corpo magro e encolhido,... Em resumo, a sua mulher ideal ficará cativada pela visão romântica de um corpo que só umas noitadas campestres vividas na solidão das montanhas com temperaturas abaixo de zero e a única companhia dos lindos uivos dos lobos da pata preta podem oferecer-lhe.

Se a mulher lhe permitir concluir a interpretação da serenata sem lhe atirar qualquer balde de água fria, peça-lhe para entrar na sua casa e tomar quer um copioso jantar demorado quer um pequeno-almoço com leite muito quente e torradas com manteiga. Se calhar este encontro furtivo será o começo de uma “amizade de longa data”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Poemas

No próximo dia 19 de dezembro, quinta-feira, às18 horas, na EOI de Zafra, vamos ter um espaço de partilha para escutar e ler poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, com um bom cafe e doces.
VENHAM!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sentou-se ao computador.
 Pensou na história que imaginara: "Uma mulher está sola no mundo. Todos os outros seres foram mortos. Alguém bate na porta da sua casa."
Não consegue continuar. "Quem fora quem bateu na porta? Um sobrevivente? Um assassino? Por quê o tempo passa tão rápido e tão lento?" 
Olhou para o teclado, ia sentar-se quando o telefone tocou. Atendeu-o e saiu rapidamente de casa...
Voltou, horas depois. Sentou-se ao computador, a história já não fazia sentido, não tinha a mesma força...
E a noite chega e a escuridão vai preenchendo a sala. Ouve una música que gosta. Esquece a escrita e decide deixar que outros terminem a história que já não tem jeito para ela. 
Devagarinho, vai até a casa de banho onde enche a banheira de água.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

UM JOGO

Da seccão O canto do livro propomos-lhe um simples jogo. Oferecemos-lhe o princípio de um conto do escritor francês Guy de Maupassant (Dieppe, 5 de maio de 1850 - París, 6 de julho de 1893) que se intitula “A morta” e pedimos-lhes que imaginem qual pode ser o seu final e, com certeza, contem-no. Todas as suas ideias são igualmente válidas, embora seja pelo feito que vocês as imaginassem. Força colegas! Ficamos a vossa espera!

A Morta

    Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.
    Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.
    E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.
    Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.
    O que aconteceu? Não sei mais.
     Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e húmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"
    Não soube de mais nada. Nada. Vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.
    Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! Meu Deus!
    Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.

    Ontem, regressei a Paris.
    (...)Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."
    Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.
    Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois, percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apoderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. (…)
    Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvore verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.
    E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.
    Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.
    Vaguei durante muito, muito tempo. Não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Que noite! Não a encontrava!
    Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos! Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!
    Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.
    E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia.(...)
                                                                                               (31 de maio de 1887)

MAUPASSANT, Guy de. Contos Fantásticos. (Trad. José Thomas Brum). Porto Alegre: L&PM, 1997. Coleção L&PM Pocket, vol. 24.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Na literatura, como na mesma vida, é preciso arriscar-se, abrir-se, entregar-se.
Assim pois, atenção leitor, começar a ler este livro é um risco, porque você pode destapar a sua mais secreta paixão. Sente-se à sombra do nosso sobreiro para iniciar esta viajem da mão dos livros, deixe-se adormecer pelo o agradável roído do vento ao passar entre as folhas desta árvore.
Inclusive se cometeu qualquer crime, ou têm um segredo inconfessável, não terá mais remédio que revelar-se com as palavras que nós lhe oferecemos"


  "Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi: morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando-  eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência.
  Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro, é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples, é esta.
  E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: "Mas porque não fez a sua confissão quando era tempo? porque não demostrou a sua inocência ao tribunal?"-a esses responderei:- A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido...Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono".


"A confissão de Lúcio"
Mário de Sá-Carneiro
Ed. Assírio & Alvim